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CULTURA

O ARTISTA “MARGINALIZADO”


Viver à margem. Esta, talvez, seja a definição correta para o local em que reside o artista plástico, design de eventos e cabeleireiro José Marin (68 anos), natural de Poço Fundo e morador de Machado há quatro décadas: a orla do Lago Artificial (Prainha). Mas o termo margem também se aplica à vida dele no quesito profissional. 
Considerado uma das maiores estrelas do Carnaval regional e bastante aclamado pelos trabalhos que faz com pintura e artesanato, José Marins confessou, durante uma entrevista exclusiva concedida à reportagem da Gazeta, que se sente marginalizado perante às autoridades constituídas.

Segundo o próprio artista, ao longo de toda a sua trajetória, poucos foram os apoios recebidos, sejam do Poder Público como da iniciativa privada – fato que lhe fez caminhar e buscar alcançar seus objetivos com os próprios esforços.

Mesmo com muito preconceito enfrentando ao longo dos anos, José Marin diz não se sentir abalado com os olhos fechados para ele e a própria arte, e assegura que, apesar dos pesares, ainda irá conquistar o espaço e reconhecimento merecidos devido aos trabalhos que desempenha em sua própria residência, onde mantém uma mini galeria e um enorme acervo de antiguidades, que espera transformar em museu num futuro próximo.

Confira o bate-papo:

GM: José, inicialmente, conte um pouco sobre suas origens.

José Marin: Sou natural de Poço Fundo. Por isso, já venho carregado de uma cultura bem forte. Estou em Machado desde 1981, quando me mudei pra cá para poder desenvolver meus trabalhos com mais liberdade. Sempre digo que a cultura é uma coisa que trazemos do berço. E, no meu caso, venho de uma cidade onde o Carnaval é muito forte.  Por isso, meu maior foco sempre foi esse. No entanto, amo e atuo em outras frentes artísticas, tanto que adoro fazer teatro, gosto muito de folclore e sou apaixonado pelas artes plásticas. Então, abraço todos os tipos de culturas. E o mais importante é que não viso lucro e nem dependência de ninguém, pois tudo que fiz e que faço é com meu dinheiro. Sempre sonhei em fazer uma mini galeria aqui em Machado. Com todo sacrifício, até comecei a fazer, mas tive um problema estrutural devido a uma obra mal feita na vizinhança, e isso me fez mudar os planos. Mas, graças a Deus, não me abalei e trabalhei muito, até consegui terminar, tudo sem a ajuda de ninguém. Estou realizando o meu sonho de construir a galeria. Espero aumentá-la mais ainda para que o povo possa ver como a cultura é importante.

GM: José, você disse que fez tudo sozinho, sem nenhum tipo de investimento privado ou público. Conte um pouco mais sobre isso.

JM: Hoje, a gente sabe que existem verbas para muitas coisas, tanto público como privado, como para a criação de um espaço cultural como o que venho construindo aqui. Mas, infelizmente, parecem não olhar pra gente. No meu caso, por exemplo tenho uma associação, toda legalizada, e nunca fui convidado ou alertado para participar de nenhum edital ou seleção de projetos para serem contemplados com recursos destinados à cultura. Sei de casos de pessoas beneficiadas com verbas públicas que me deixam de boquiaberto. Porém, mesmo ciente de que muitos dos escolhidos não cumprem seu papel cultural, continuo desenvolvendo meu trabalho da melhor maneira possível, ao meu modo. Estou feliz assim, mas espero que um dia se lembrem de me ajudar na associação é possível montagem do museu.

GM: Além dos quadros que você pinta, quais são os outros tipos de artes expostos em sua galeria?

JM: Aqui exponho telas, móveis, peças antigas, artesanatos… Gostaria de expor muito mais coisas que tenho em casa, guardadas, mas o espaço, por maior que seja, ficou pequeno. Futuramente, pretendo dar aulas de pinturas e de cortes de cabelos gratuitamente. Estou esperando só me reestruturar financeiramente para poder adequar o espaço, pois, para terminar aqui, tive um gasto maior e estou pagando ainda. Se tudo correr bem, em breve, estarei capacitando crianças, jovens e adolescentes carentes que gostam de cortar cabelo, de pintar, de desfilar em passarelas ou eventos de moda, de mexer com artesanato… Enfim, quero propagar a cultura para o maior número possível de pessoas.

GM: Voltando ao assunto Carnaval, quem te conhece sabe que é um ícone aqui do Sul de Minas. Fale um pouco sobre a sua história e os desfiles que já fez, os carnavais que participou, os eventos que encabeçou aqui em Machado, e como foi fazer ações para suprir isso perante a pandemia, como o desfile solo que promoveu aqui na Prainha este ano.

JM: Não aguentei ficar sem, porque é uma coisa que já está no sangue da gente. Então, é assim: comecei a desfilar no Carnaval com 12 anos, na Escola de Samba Acadêmicos do Samba, em Poço Fundo. Naquela ocasião, eu mesmo fiz uma fantasia que tampava o rosto com máscara, pois ninguém podia saber que era eu ali. Desfilei nessa escola por muitos anos. Fui o primeiro homem da região a dança em frente a uma agremiação. Antigamente, só mulheres faziam isso, mas, lá em Poço Fundo, fui o pioneiro nesse quesito. Também fui um dos primeiros a me tornar cabeleireiro, pois, naquela época, só havia barbeiros, que cuidavam de homens. Porém, eu já fazia sobrancelhas, unhas, maquiagens, arrumava noivas, mexia com decorações de festas e pintava também. Foi quando vim para Machado. Aqui já ajudava as pessoas que organizavam o Carnaval, como a turma da Escola de Samba A Voz do Morro, do meu amigo Jorginho, que era um ser maravilhoso, e tudo ficou mais fácil. Depois disso, me enganei no concurso Beleza Negra, sendo um dos primeiros maquiadores do evento. Já “arranjei” até Miss Minas Gerais. Mas, politicamente falando, sempre me deixaram de lado. Porém, continuei do mesmo jeito. Acredito que esta nova gestão, diferentemente das demais, tem tudo para ser diferente e retomar muitos acontecimentos culturais que fazem parte da história do município e andam esquecidos. Retornando ao Carnaval, quando mudei pra cá, trabalhava para fazer a festa, porque a Prefeitura dava uma verba, naquele tempo, cerca de R$ 10 mil, pra gente vestir quase 150 pessoas. Daí, o que eu fazia: ia lá com meu dinheiro e trazia alegorias e fantasias. Alugava aquelas roupas e, muitas vezes, o pessoal não devolvia as peças e eu tinha que arcar com os custos. Mas, como era uma coisa que estava no meu sangue e gostava bastante, tomava prejuízo sem reclamar. Persisti durante muito tempo fazendo Carnaval, até que chegou uma época em que tudo isso foi se acabando. Com o passar dos anos, cada prefeito que passou foi deixando o Carnaval morrer. Uns diziam que aproveitariam aquele dinheiro da festa para investir em Educação, outros usavam o mesmo artifício alegando que aplicaria os recursos em habitação, mas, no fim, nada disso era cumprido. E foi assim que o Carnaval enfraqueceu. Depois disso, foquei mais em meus projetos, como a construção de minha casa e um espaço para fazer as minhas coisas, para criar a minha galeria ou o meu museu, onde, mesmo sem trabalho, consigo mostrar o que produzo para o povo, e assim foi indo, ate acabar o carnaval. Após anos sem Carnaval em Machado, hoje, posso dizer já estou pronto para reativar a festa na cidade. Com o apoio da Prefeitura e das pessoas certas, sei que isso é realmente possível. Se me procurarem, já tenho o que quiserem para fazer um Carnaval bonito aqui em Machado, como é em Poço Fundo. Sempre lutei e trabalhei porque gosto e acho que o povo merece isso, e não para aparecer.

GM: Você falou algo sobre problemas que encontrou pelo caminho. Quais seriam?

JM: Desfilo nas escolas de samba há 40 anos. Já desfilei na Vila Isabel e na Viradouro, no Rio de Janeiro, e na Vila Maria, na Neném da Vila Matilde, na Mocidade Alegre, na Império de Casa verde, na X9 Paulistana, em São Paulo. E, ao longo desse tempo, sofri e fui muito feliz com os gestores locais. Alguns me apoiavam financeiramente e culturalmente. Outros apenas me desprezavam. Mesmo assim, pegava meu dinheiro e ia para as capitais somente para desfilar. Não guardo rancor de ninguém, mas algumas pessoas pisaram na bola comigo, o que, naquela época, se tornou um problema. Porém, com muita luta, cumpri meus objetivos e, hoje, estou aqui para poder contar todas essas histórias a vocês.

GM: Aqui em sua galeria é possível perceber muitas telas pintadas. Fale um pouco sobre esse dom.

JM: Sou muito feliz fazendo o que gosto, mesmo gastando. Na vida da gente, para sermos felizes, é preciso fazer aquilo que ama. A própria Bíblia diz “que o caminho é estreito”. Então, vamos viver o caminho estreito. Adoro pinturas e produzo muitas telas. O problema disso tudo é que exige um investimento alto. À medida do possível, vou desenvolvendo meus projetos. Apesar dos obstáculos, sigo fazendo meu trabalho e homenageando as pessoas que amo e pelas quais tenho admiração. Se Deus me deu esse dom, quero executá-lo até quando for possível.

GM: Como está seu acervo hoje?

JM: Tenho muitas fantasias de carnaval, porque as comprava logo após os desfiles. Aí, fui guardando as alegorias e fiz o meu acervo. Além disso, meu acervo é composto por muitas coisas antigas. Aqui, tenho muitas maquininhas de costura, mais de cinquenta tipos de moinhos de carne, xícaras, ferros de passar roupas a brasa… Até revistas de 1923 eu tenho. Enfim, tenho bastante coisa. E tudo serve para enriquecer a história cultural do município se for exposto da maneira correta.

GM: Qual é o seu desejo real para as artes  que produz e o acervo que possui?

JM: A primeira coisa que queria é que respeitassem a minha arte, meu trabalho. E esse respeito que digo é um carinho com a gente. Por exemplo, às vezes, e não sei se em Machado acontece isso, os “responsáveis” pela cultura passam verbas para pessoas que nada produzem. Parece que fazem isso apenas para receberem elogios, para agradar e serem bem falados em lugares específicos. Volto a repetir: não sei se acontece esse tipo de coisa em Machado. Então, no meu ponto de vista, falta uma verba para artistas que realmente querem fazer uma pintura, emoldurar aquela tela e, assim, expor o seu trabalho com toda a magnitude que merece. Por exemplo: hoje, se você for fazer um trabalho em uma tela grande, só de tinta gastará cerca de R$ 5 mil. Para colocar moldura nela se vai mais R$ 1 mil. É um trabalho caro, mas que valoriza o artista. No meu caso, como já tenho uma associação, podemos desenvolver um projeto de ensinar as técnicas, formando novos artistas para a cidade, e, ao mesmo tempo, promover benesses à sociedade, seja através da restauração de obras, móveis e imóveis da cidade tombados como patrimônio ou não. Não é uma coisa difícil de fazer. Basta saber investir nos lugares certos. Tenho certeza que o nosso novo prefeito, o Maycon Willian da Silva, vai melhorar isso. Moro aqui, na Prainha, há 32 anos. Sempre senti que aqui é um lugar maravilhoso, mesmo do jeito em que está. Agora, ele se comprometeu a desenvolver o projeto maravilhoso de revitalização do lugar, que voltará a ser um cartão postal regional, e não só da cidade. Com tudo isso acontecendo, parece que as engrenagens vão se redesenhando, pois minha casa já está inserida neste cartão postal. Faltam apenas alguns detalhes para termos uma ótima galeria ou museu no lugar que será visitado constantemente por toda a população e pelos turistas. Com a chegada da modernidade e esse socorro à natureza proporcionados pela atual gestão, tenho certeza de que tudo será melhor daqui pra frente.

GM: Trocando em miúdos, você acredita então que esse avanço pode ser benéfico para a criação do seu museu?

JM: Sim! Como já sinto que meu espaço é um museu e por estar aqui na Prainha, acredito que tem tudo para esse projeto dar certo. Em Machado, graças a Deus, muita gente gosta de mim e da minha arte. Acho que está na hora de alguém dar um chacoalhão nisso tudo. E a pessoa certa está aí. Acredito que tudo será questão de tempo. O prefeito tem uma cabeça muito boa, está sempre voltado às pessoas pobres. Ele já está fazendo o bastante, e a tendência é tudo dar certo.

GM: José, mesmo não tendo ainda um lugar específico para visitações, para quem quer conhecer o seu trabalho, como proceder?

JM: As portas estão abertas para todos. O pessoal pode vir à vontade, seja para elogiar ou para criticar. Não me importo com opiniões contrárias. Tudo é válido para o crescimento pessoal de cada um. Tudo incentiva a gente. Estou aqui para fazer o que a cidade precisar de mim. Estou de braços abertos à comunidade machadense.

 

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