
Rayner Saint Clair, consultor e palestrante em educação antirracista, fala sobre o apagamento da história negra, o epistemicídio nas salas de aula brasileiras e por que o 13 de maio precisa ser lido com olhos críticos 138 anos depois.
Nascido em Machado, Rayner Saint Clair é atualmente assessor especial de Políticas Públicas e presidente do CMIR (Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial) – Gestão 2025/2027 e, juntamente com a secretária de Educação de Machado, Márcia Souza, um dos artífices do projeto “Ubuntu: Eu Sou Porque nós somos”, referência estadual em formação docente antirracista. Ao lado de educadores, pais e comunidades, ele tem feito o que muitos chamam de urgente: devolver à história o que foi roubado dela.
E, justamente, no 13 de maio, data que celebra a Abolição da Escravatura no Brasil, ocorrida em 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, que extinguiu oficialmente o regime escravocrata, libertando cerca de setecentos mil escravizados, a Gazeta fez uma entrevista exclusiva com Rayner e traz um outro olhar sobre o assunto.
Durante o bate-papo, o profissional de comunicação e de gestão pública falou sobre os desafios para se combater o epistemicídio e as maneiras de combatê-lo, proporcionando o verdadeiro valor da raça negros e oportunidades iguais para todos. Confira:
Gazeta Machadense: Estamos em maio. Todo ano, o 13 de maio volta à pauta com a mesma narrativa: a princesa bondosa, a lei assinada, a liberdade concedida. O que essa narrativa esconde?
Rayner: Ela esconde tudo que realmente importa. A abolição não nasceu da generosidade do Império. Ela foi arrancada por séculos de resistência negra, fugas, quilombos, insurreições, sabotagens, que tornaram o sistema escravocrata economicamente inviável e politicamente insustentável. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. Isso não é coincidência: é a marca de uma elite que resistiu até o limite. Quando a Lei Áurea foi assinada, não havia um plano para os libertos. Não havia terra, crédito, escola ou política alguma de integração. O que veio foi o oposto: o Estado financiando a chegada de mais de quatro milhões de imigrantes europeus enquanto a população negra era empurrada para as margens. A escola conta a data, mas não conta o dia seguinte. E é no dia seguinte que está a chave para entender o Brasil de hoje. O epistemicídio não é abstrato. Ele acontece toda vez que uma criança negra passa 12 anos numa escola sem ver um cientista, um filósofo ou um herói que se pareça com ela.
Gazeta Machadense: Você trabalha com o conceito de epistemicídio. Como explicar esse termo a um professor do Ensino Fundamental?
Rayner: Epistemicídio é o assassinato do conhecimento. É quando um sistema, formado pela escola, pelo currículo, pelos livros didáticos, apaga sistematicamente os saberes, as histórias e as referências de um povo. Quando ensinamos que a história do Brasil começa com a chegada dos portugueses, estamos cometendo epistemicídio. Quando o único africano que aparece no livro didático está acorrentado em um navio negreiro, estamos cometendo epistemicídio. A criança negra cresce sem espelho. Ela aprende, desde cedo, que os grandes pensadores, os grandes heróis, os grandes inventores têm outro rosto. Isso não é neutro. Tem efeito direto na autoestima, no desempenho escolar e na construção de identidade da criança negra, e da branca também.


Gazeta Machadense: Existe resistência nas escolas quando o tema é educação antirracista?
Rayner: Existe, e ela vem de vários lugares. Existe o professor que nunca foi formado para isso, e não é culpa dele, é falha do sistema. Existe o gestor que tem medo de conflito com as famílias. E existe, claro, a resistência ideológica, aquela que confunde educar com doutrinar. Mas o que descobrimos com o Projeto Ubuntu é que quando você chega com escuta, com metodologia, com materiais concretos, a resistência cede. O professor não quer errar. Ele só precisa de suporte. A Lei 10.639 existe desde 2003, são mais de vinte anos! E ainda há escolas que nunca aplicaram sequer uma aula sobre história africana. Não é falta de lei. É falta de formação e de vontade política. É aí que entra o nosso trabalho.

Gazeta Machadense: O que as escolas e os profissionais da Educação precisam fazer agora, concretamente?
Rayner: Primeiro, entender que educação antirracista não é um projeto paralelo, uma semana temática em novembro. É uma postura permanente, transversal, que atravessa matemática, ciências, literatura e história. Segundo, investir em formação docente continuada, porque você não ensina o que não sabe. Terceiro, rever os materiais. Quem está nos livros? Quem está nas paredes da escola? Essas escolhas não são neutras. E quarto, talvez o mais importante, convocar a comunidade. Nós temos esse caminho mapeado. O Guia Prático Antirracismo que desenvolvemos foi pensado exatamente para isso: para que qualquer escola, em qualquer município, possa começar hoje.
Palestrante e consultor em educação antirracista, Rayner Saint Clair é assessor especial de Políticas Públicas da Prefeitura de Machado e presidente do CMIR (Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial). É co-responsável pelo projeto Ubuntu e atua na formação de docentes para salas de aula.

Em sua gestão, o CMIR desenvolveu o Manual de Educação Antirracista da Rede Municipal e o Guia Prático Antirracismo para empresas e organizações.
Formado em Administração, com MBA em Estratégia Empresarial pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) , também é especialista em Comunicação e pós-graduado em Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena.

Rayner Saint Clair é presidente do CMIR (Conselho Municipal de Promoção a Igualdade Racial) de Machado.


















